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Visita terminou também com um sinal pouco habitual: Putin cancelou a conferência de imprensa que costuma realizar no final das deslocações ao estrangeiro
Vladimir Putin deixou a China esta quarta-feira sem anunciar o acordo energético que Moscovo esperava fechar com Pequim. O presidente russo e Xi Jinping assinaram uma declaração conjunta, condenaram os ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o Irão e presidiram à assinatura de vários acordos de cooperação, mas não houve entendimento final sobre o aumento das exportações russas de petróleo e gás para a China nem sobre o gasoduto Força da Sibéria 2.
A visita terminou também com um sinal pouco habitual: Putin cancelou a conferência de imprensa que costuma realizar no final das deslocações ao estrangeiro. Segundo o ’20 Minutos’, a decisão foi associada à falta de resultados tangíveis durante a passagem pelo gigante asiático.
O ponto central para Moscovo era o futuro do Força da Sibéria 2, um gasoduto de cerca de 2.900 quilómetros que atravessaria a Mongólia e permitiria à Rússia enviar mais gás para a China. O Kremlin afirma que existe um “entendimento” sobre os principais parâmetros do projeto, mas admite que continuam por fechar detalhes essenciais, incluindo calendário, preço e prazos de construção.
Para a Rússia, o projeto ganhou importância estratégica depois da guerra na Ucrânia e da forte redução das importações europeias de energia russa. China e Índia tornaram-se destinos cada vez mais relevantes para Moscovo, que procura compensar a perda do mercado europeu e apresentar-se como fornecedor fiável de petróleo, gás e carvão.
Putin insistiu em Pequim que a Rússia está pronta para garantir um “fornecimento seguro e ininterrupto” de hidrocarbonetos e carvão, numa altura em que a crise no Estreito de Ormuz também afeta as importações chinesas de energia. A presença em Pequim dos responsáveis da Rosneft e da Gazprom reforçou a expectativa de anúncios no setor energético, mas as grandes decisões ficaram por concretizar.
A dimensão política da visita foi, ainda assim, cuidadosamente encenada. Xi Jinping recebeu Putin com honras no Grande Salão do Povo, poucos dias depois de ter recebido Donald Trump no mesmo local. A sucessão de encontros foi apresentada pela imprensa estatal chinesa como sinal de que Pequim está a consolidar-se como centro da diplomacia global.
Xi afirmou que as relações entre China e Rússia estão “no nível mais alto da sua história” e apontou a energia e a conectividade como pilares da cooperação bilateral. Os dois líderes decidiram também prolongar o Tratado de Boa Vizinhança, Amizade e Cooperação, assinado há 25 anos.
Na declaração conjunta, Rússia e China defenderam uma ordem internacional multipolar e criticaram a hegemonia unilateral. Os dois países condenaram ainda os ataques dos EUA e de Israel contra o Irão, considerando que violam o direito internacional e agravam a instabilidade no Médio Oriente. Xi defendeu uma cessação completa das hostilidades, num contexto em que Pequim depende fortemente das rotas energéticas afetadas pela crise no Golfo.
A guerra na Ucrânia também esteve presente. A Rússia reiterou o apoio ao princípio de Uma Só China e à reunificação com Taiwan, enquanto Pequim voltou a defender a eliminação das “causas profundas” do conflito ucraniano, formulação usada por Moscovo para justificar a oposição à expansão da NATO. Putin agradeceu a Xi a “postura objetiva e imparcial” da China e o seu papel na procura de uma solução política e diplomática.
A mensagem pública foi de alinhamento estratégico, mas a ausência de um grande acordo energético mostra os limites da relação. Moscovo precisa cada vez mais da China como cliente e parceiro económico, enquanto Pequim mantém margem para negociar sem pressa, sobretudo num projeto tão caro e sensível como o Força da Sibéria 2.
A visita terminou com a habitual imagem de proximidade entre os dois líderes, incluindo chá e elogios mútuos. Xi descreveu os resultados como “muito frutíferos”; Putin disse que as delegações tinham revisto o trabalho feito nos últimos anos e definido perspetivas futuras. Mas o dado político mais relevante ficou no que não aconteceu: a Rússia exibiu sintonia com a China, mas não conseguiu arrancar o acordo energético que mais precisava.
Créditos: Executive Digest
TVSH 21/05/2026
